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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quarenta e oito dias

Sim, desde que eu te vi, eu te quis
Eu quis te raptar
Eu fiz um altar pra te receber
Como um anjo que caiu lá do céu
Não estava voando
Andando, distraiu-se

A euforia me fez calcular e recalcular os dias que faltam. Peguei os óculos, peguei o calendário, sentei numa cadeira e fui ao encontro do mês que nos espera. Contei. Recontei. Abaixei a cabeça num lamento profundo e pensei comigo: "Caralho! Falta muito ainda!"

Voltei para o que eu estava fazendo. Mas não consegui me concentrar. Vi meu rosto no reflexo do vitrô da cozinha. Já era tarde, muito tarde. Porém, na minha imaginação, já eram nove horas da noite e você à espera de quem não via há tempos naquele aeroporto.

Minha ansiedade permitia que a minha imaginação fosse longe. Distante. Para outro lugar. Para outro Estado. Era você ali me esperando, me querendo, fazendo um altar para me receber.

Além da saudade, é amor também o que sentimos. A gente sempre sente o que vem da alma.

Graças a imaginação, minha cabeça não parou um minuto quando vi a agenda do celular apontando a data que nos espera. Falta muito? Não, não responda. Fazemos de conta que não falta tanto tempo assim. Fazemos de conta que sabemos disfarçar muito bem essa saudade interminável que temos um pelo outro.

Eu aqui. Você aí. E a nossa imaginação interligando uma vontade que só a gente sabe sentir: estar junto um do outro, um para o outro, um com o outro.

Verás de perto o quão oscilo de humor. Verás as minhas manias, o meu riso solto ou o meu jeito de ficar sem graça quando você me elogia.

Falta pouco! Não falta?

Sim, faz falta. Você me faz falta.

Mas só faltam 48 dias.

Só 48 dias.

E contando.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Another time!

São três horas da madrugada, e eu não consigo deitar a porra do meu corpo na cama e, enfim, dormir. Porque a mente não para. Ainda estou vestida com a camisa preta e com aquela calça jeans desbotada. 
Nem quando eu tinha 17 anos eu achava que um dia me encontraria desnorteada. Me desnorteio com as minhas próprias ideias.
Há onze meses oscilo de humor com uma frequência absurda. "Caralho! O que eu estou fazendo de errado para nada dar certo?". Parece que nasci para me cobrar - até porque, a minha futura profissão exige certas cobranças indispensáveis.
Ando angustiada, sim. Mas pra quê transparecer? Tenho que ser forte. Tenho que manter o sorriso no rosto. Tenho que falar para mim mesma que está tudo bem, ou que ficará tudo bem.
Mas eu estou cansada.
Cansada de perceber que não consigo ter disciplina para cumprir com os meus planos. Que ódio! Não era para ser assim. Era para ser diferente! Era para eu me cobrar menos. Era para eu ter menos preguiça e mais disposição. Era para eu acordar cedo. Era para eu me desvincular de um monte de coisa, de um monte de vício, de um monte de pragas. Era para eu dormir antes das 02h. Era para eu me dedicar a isto e não aquilo.
Viu só? Eu e a minha lista de culpas.
Daqui a pouco dezembro chega. O mês mais diabólico - com todo respeito - na minha visão. Porque é o mês que eu e você fazemos uma porrada de anotações do que fará "de novo" no ano seguinte, mas, não cumpre. Passam 12 meses e a lista continua intacta.
Eu preciso de distância. Ou melhor: eu preciso me distanciar. Nem eu e nem você - muito menos você! - precisa dar atenção a esse monte de lamento.
É horrível se sentir assim: um estranho no ninho. Deve ser mais uma crise existencial que para você, deve ser besteira. Deve ser essa oscilação de humor. Deve ser a TPM. Deve ser a saudade. Deve ser a vontade de fazer diferente -, mas, estacionar. Estacionei.
"Calma, menina! Você é nova! Tem muito o que viver pela frente!"
Mas, sabe qual é o problema? R: ansiedade. Sou ansiosa. Vim a esse mundo com três meses antecedendo os 09 meses de gestação da minha mãe. Isso explica muita coisa. Acredite!
Tá foda. Mas tô viva!
E outra vez vou tentar reconciliar comigo mesma. Outra vez vou dizer a mim que é possível. Outra vez daquela outra vez perdida. E torcer para que seja diferente. Outra vez.

Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.

Pelo menos, pelo menos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

E o teu momento passa a ser o meu instante...

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Eu não sei muito bem como dizer, mas não queria deixar de te dizer. Às vezes ando pela casa relembrando o teu olhar e ar de quem se apaixona pela primeira vez. Como foi mesmo que tudo isso aconteceu?
Como era mesmo aquele medo que você sentia antes de se arriscar por nós? Substituímos o medo pelo frio na barriga naquela noite, lembra? 
Eu não quero acordar. Eu não quero acordar para ir trabalhar e te deixar na nossa cama. Eu não quero te deixar. Eu não quero que você se vá. Eu não quero.
Eu confesso que ainda não aprendi a fazer declarações tão singelas quanto as suas. Você me arranca cada sorriso, cada sílaba, cada suspiro...
É, deve ser amor mesmo. Muito amor. E se não for amor, eu não sei como definir tudo isso que sinto por você.
Eu queria fazer de você um amuleto para que eu pudesse te carregar para sempre. Eu sei que pertenço a ti. E vice-versa. Mas a saudade que sinto de você, de nós, me machuca.
Começo a me arrepender a escrever tudo isso, porque da mesma maneira que eu queria dizer - gritar! - ao mundo que estou amando; ao mesmo tempo, queria preservar tudo isso. Talvez por egoísmo de minha parte. Eu queria te blindar, você sabe disso. Queria que o mundo só pertencesse a nós. Pois, de certa forma, tenho medo de perder tudo isso. De te perder. E eu não quero te perder.
Quero saber das suas manias. E quero que você descubra as minhas. Quero preparar o nosso café. Quero brigar com você para que a nossa reconquista seja tão prazerosa quanto as nossas noites anteriores. Quero passar horas digitando no teclado do computador para que você chegue e me tire de lá como se me tirasse para dançar. Quero descobrir coisas novas contigo, e reviver coisas que já sabemos lidar. Quero chorar no seu colo. Quero ficar puta com o mundo lá fora, e me afogar nos seus braços como se fossem um refúgio. Quero chegar tarde e te encontrar dormindo. Quero dormir com você. Quero transar com você. Quero ser amor com você. Quero ficar sozinha - com você. Quero te dar orgulho. E prazer. Quero adotar mais dois gatos e te dizer que os nomes você pode escolhê-los. Quero tanto contigo, e tudo também. Quero ficar em silêncio, mas não longe de você. Eu quero. E você quer também. O tanto - ou mais - do que eu. Queremos.

Preciso ir. O despertador tocará daqui a pouco.

Mas, antes: te agradeço por você ter sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Mesmo em segredo.

Mas você é o meu melhor segredo. Nunca se esqueça disso.

Amo-te.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pra poder te gravar em mim

Eu queria deixar tudo pronto. Eu queria deixar do jeito que você gosta – ou do jeito que gostaria que fosse.

Mesa posta.

Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que aquele dia pudesse acontecer.

Enquanto eu lavava a louça, meu riso corria fácil ao me recordar de quando a tia Rose dizia que eu não tinha jeito para cozinha, e olha só quem fez o almoço especial à sua espera.

Toca o telefone.

Eu nunca acreditei quando a tia Rose dizia com certa ironia esboçada em suas palavras que eu era desastrada – até eu tropeçar na banqueta quando me dirigi à estante de madeira marfim.

Era você.

Após o telefonema, tentei disfarçar todo aquele meu jeito desastrado quando decidi prender os meus cabelos com a caneta. Queria estar bonita para te receber – mesmo vestida com aquela camiseta-pijama e uma bermuda jeans escura.

Na pressa, bati a porta do apartamento, e nem me toquei na Dona Reclamona do 405 que fez cara feia quando ouviu o estrondo.

Dane-se. Eu estava feliz.

A caminhada até o metrô me fez ensaiar todas as palavras que eu queria dizer a você.

Reencontrei-te. Nos reencontramos.

O abraço.

Um abraço apertado.

E voltamos. Para o apartamento.

Eu não sei se eu deveria acreditar em seus elogios sobre o almoço que eu fizera naquela tarde. Eu mal conseguia acreditar que você estava ali. Só pra mim.

Enquanto você fazia o bom moço ao arrumar a cozinha para mim, eu me distraía no seu jeito doce e misterioso.

Brincamos. Rimos. E nos beijamos.

Universo nosso. Único. Nós dois e mais ninguém.

Teu riso foi se perdendo quando reparou que precisava partir. Como das outras vezes.

“Tudo bem” – eu respondi. Mas não estava.

Queria demonstrar pra você que eu ficaria bem mesmo com a sua partida, então eu decidi não me despedir.

Você se foi. E eu fiquei. Outra vez.

Mas quando tranquei a porta logo que você saiu, decidi não me entristecer.

Afinal, você voltaria.

Como das outras vezes.



Do you remember?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Além da escrita

Eu queria escrever. Mas eu não queria escrever qualquer coisa pra ti. Te sentir seria um presente que do qual eu não dispensaria. Apesar das verdades. Apesar dos pesares que pesam na minha consciência.

Não sei se estou no caminho certo. Não sei se ficar na retaguarda seria uma válvula de escape. Não sei como vai você.
E se você partir? Sem mim?

Hoje de manhã, alguém bateu na porta. Como aquele sonho que te contei um dia, eu achei que seria você. Mas você partiu.

Ainda estou aqui tentando escrever algo que remete a você sobre nós. E nessas ânsias de acertar, idealizei um futuro que não me pertence.

Acho que é melhor assim.

Partir.

Sem se despedir.


Trilha Sonora:

domingo, 13 de setembro de 2015

Incógnita

Descobri que falta algo para saber quem é você. Eu, até hoje, não descobri. E como já disse em outras ocasiões, eu tenho medo de descobrir quem é você realmente.
Passei a minha vida me policiando, achando que seria um erro arriscar ou apagar mais um cigarro por você. Continuo com as mesmas sensações, com os mesmos receios e arrependimentos. Eu ainda não me curei do trauma que tenho de mim. Do trauma que carrego sobre mim. É forte e é confuso. Do jeito que você é para mim.
Mas você veio. E pairou. E continua aqui. Aqui dentro desse coração idiota, que percebe que será "só mais um", que engole seco ou sem gelo a bebida sobre a mesa.
Eu não queria viver dessa forma, estar nessa forma, me sentir dessa forma. Penso em me afastar. Mas ao mesmo tempo, penso que me afastando, irei te perder. Mas, perder alguém que eu não conheço?
Estou me alimentando de um amor impróprio. De um amor que não me pertence. Que, no fundo, machuca. E você nem sabe disso.
Por que tem que ser assim? Desse jeito bobo? Desse jeito confuso.
Outro cigarro.
Outros medos.
Outros e outros.
E mais outros.
E continuo aqui, me policiando. E não saberei até quando.


Eu não sei muito bem o porquê disso tudo agora. Talvez, quando eu for embora, já me encontrarei arrependida. E você... Não vai nem notar. Por que, para você, é normal toda essa minha sensação de desespero e fragilidade.
Dessa vez...
Não. É melhor não planejar.
Talvez - outro talvez - tudo dará errado outra vez...
Não entenda. Não me interrogue. Não me deixe partir.
Mesmo se for preciso.

De sua menina.

domingo, 26 de julho de 2015

Três da madrugada

Percebi o silêncio que rondava a simples sala de estar com aqueles poucos velhos móveis que pertenciam ao meu apartamento. Me vi amarrotada com a camisola lilás que você me presenteou no meu aniversário de vinte e cinco anos. Amarrotada por ter dormido naquele sofá que você achava aconchegante. Muitas noites ali com você.

Mas não me consumi a isso.

Me levantei. E em seguida, destrambelhada como sempre fui, tropecei nos chinelos que você deixara pela casa. A minha casa.

Eram três da madrugada. Droga! Certamente, eu iria me atrasar para ir trabalhar no dia seguinte - pensei. Mas, por um instante, ignorei todos os fatos que iriam me levar às consequências na breve quinta-feira que viria a amanhecer.

Abri o armário, peguei um copo daquele conjunto ridículo que eu ganhei da vizinha do 205. Me saciei com a água que percorria minha garganta, matando a sede sem fim.
A sala e a cozinha estavam às escuras. Ou melhor, quase às escuras. Percebi que a luz do quarto de casal estava acesa e permitia que a claridade iluminasse os demais cômodos.

Quem foi que esqueceu a luz acesa? Ok, já sabemos a resposta.

Você foi embora. De novo. E esqueceu de apagar a luz do nosso quarto. De n...
Pela primeira vez, não me importei com a sua breve eterna ausência. Você sempre ia. E voltava. E me tratava como a mulher da sua vida, mesmo eu não me considerando a sua mulher de todos os dias.

Não sei nada de você. Nunca soube. E não sei se saberei algum dia. E se eu souber, vou fingir que não sei quem é você. Totalmente.
A minha maturidade não estragará o sentimento em forma de paixão que sinto por você. E pelos cinco anos temos juntos. Ou tivemos.

Voltei para o velho sofá. O nosso melhor lugar. E dali, prometia a mim mesma que as juras de amor que eu já fizera a você, seriam guardadas por mim e aguardadas por ti. Talvez, em breve.
Mas longe de mim cair no conto de fazer planos. Não dessa vez. Não por você...

Mas, por nós.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Serei o seu vício

Cansei de traçar os passos tortos que eu dava naquela calçada recheada de passos atravessados, e então decidi entrar naquele bar de gente estranha.
Sentei-me em uma das primeiras mesas vagas de solidão. Um garçom, carismático graças a sua profissão exigente de bons costumes, veio até à mesa dobrar-se às minhas vontades. Sem muitas delongas, apenas pedi uma cerveja.

Enquanto os ruídos de brindes e gargalhadas espalhadas num ambiente extrovertido se sobressaíam, reparei em você sentada logo a mesa em frente da minha.
Juro àqueles que são mais tímidos do que eu: tentei disfarçar, mas vi que você atravessou o teu olhar com o meu. Pensei: "És bonita demais para olhar prum cara solitário como eu."
Você estava acompanhada com um riso solto e se esquivava da sombra que rondava o teu copo de cerveja. E eu ainda te observava dali, sentado e angustiado em saber que tu já estavas acompanhada.

A minha cerveja chegou. Trincando a garganta como se saciasse toda a sede de um solitário na multidão. E você ali, jovem e bela, apenas ali, sem muito o que dizer àqueles que estavam ao seu redor.

Levantei-me com um estalo na ânsia de tragar um cigarro. Fui até a porta do bar e sem olhar para atrás, peguei o maço de cigarros que estava no bolso direito da minha calça jeans. O isqueiro acendeu a chama de uma noite que se iniciara. Guardei os meus vícios. Sem dar um passo a mais, apenas me direcionei da porta do bar à sua mesa. Trocamos olhares. E percebi um olhar desconfiado vindo de você ao perceber que a fumaça tóxica percorria os meus pulmões.
Tentei ignorar o fato de saber que já comecei errado a única chance de roubar a sua atenção.

Alguns longos e arrependidos minutos depois, apaguei o cigarro como se ele fosse o culpado da sentença que viria em seguida. Tentei controlar os passos de voltar ao bar e retornei ao meu lugar.
Nunca fui muito bom em cálculos, mas ainda acho que você já estava na terceira rodada de cerveja. Uma alegria abafada te cobria por ali.
Já a minha primeira e única cerveja daquela noite se acabara como uma despedida daquele bar e daqueles teus olhares.

Sem volta, me direcionei até ao caixa do bar. Com alguns trocados, paguei a conta. E não troquei negociações com o simpático garçom para que ele descobrisse qual seria o seu nome ou se eu poderia te acompanhar em qualquer lugar, desde que fosse só para te olhar por alguns instantes.
E pela primeira vez, agradeci à minha falta de coragem por este feito. Pois ainda acredito, que em algum lugar, continuaremos a trocar olhares sóbrios ou despercebidos, para que eu tenha a (única) chance de ser o seu vício longe de um bar descontraído. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Como se fosse um efeito dominó...

Dessa vez eu acordei com a expectativa que os meus 29 anos de vida não fossem regados de saudades de você. Mas foi impossível, Ruan. É incontrolável.
E eu sei que a culpa não é sua. Não tenho o direito de te culpar, afinal, quem saiu daquela sala de estar pela última vez, fui eu. Eu: a culpada.

Tento buscar refúgios de um passado que nos pertenceu, buscando-me no fundo desta bebida alcoólica as respostas das minhas incertezas.
Não sei por onde você anda e muito menos quem é você realmente. Parece que você aprendeu algo comigo: sair sem se despedir.
E tento também, com a minha rotina insuportável, enfrentar e disfarçar o que eu escondo num olhar tenebroso. 

Sinto-me incapaz de reagir com essa minha tristeza abafada, Ruan. As minhas súplicas nos fins de noite são ensurdecedoras. Engano-me como se fosse fácil, mas não é.
Crio personagens como se fossem salvações desta ser que teme em voltar a te procurar.

Mudo-me de cidade.
Mudo-me de emprego.
Mas não consigo deixar as bagagens que você deixou dentro de mim.
Parece um karma que me persegue.
Parece que você ainda está aqui. E não está.

Não choro, por que não sei chorar com essa mera facilidade que os sentimentos indesejáveis nos fazem transbordar, mas quando eu te tiro de um plural que já foi nosso, machuca.

Já busquei outros homens, outras transas, outros amores, outros cheiros.
Não sou uma mulher robótica. Permitia-me sentir prazer com as sintonias que me rondavam num tempo que substituía os pensamentos em noitadas duradoras.
Mas, você... Ah, você!

Não sei quando a minha vida voltará a ser uma fábula. Não espero por ti esta dádiva.
Mas, ainda espero que o dia de hoje não me dobre como um dia crucial.

E mesmo sem você.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Respeitável público...

Resgatei a minha infância em algumas lágrimas derramadas durante um depoimento que eu mesma concedia num ambiente contagiante.
Deparei-me que ainda há sentimentos empurrados dentro desta ser que, por bem ou por mal, não repara em si própria. Que vê um turbilhão de defeitos dentro de si, e acha, que por algum motivo, não sairão pelos poros.

Sim, chorei ao relatar uma experiência que eu tenho guardada há muitos anos: o sabor da infância revivida num lugar tão simples e cheio de histórias.
Ah, as cores, os risos soltos, a alegria imensurável e aquele brilho nos olhos voltaram após quatorze anos.

Ás vezes paro e me pergunto se ainda dá tempo de sorrir sem nenhum pretexto... Entende?

Quando eu era criança, ficava contanto nos dedos das mãos quantos anos demorariam para eu alcançar a maior idade. A alcancei. E não anseio mais por isso.

Mas que bom que ainda há pessoas que nos fazem sair desta zona de conforto. Motivo das lágrimas daquele depoimento.

Tantas e mais tantas recordações que eu posso lhe descrever a cada detalhe quando eu vi aqueles personagens caracterizados pela primeira vez, ainda criança.
Ainda lembro o trajeto e quem estava ao meu lado. E por agora: não está mais tanto assim.
Que sorte a minha ter estas recordações guardadas como se fossem tesouros preciosos. E são. Acredite!

Espero ter a sorte de nunca esquecer destas recordações, mesmo que a menina tenha crescido e se deparado com um mundo que lhe espera lá fora sob luzes artificiais.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O caminho do anoitecer

Nunca imaginei que eu teria uma vida tão agitada no auge dos meus vinte anos.

Cinco horas da tarde: fim de expediente. E a única ânsia que eu prevejo é a minha ida até a estação de trem daquela cidade pacata e distante da capital paulista.

Embarquei. Aparentemente, sigo um ritual diário: sentar-me num banco de um vagão premeditado que me traga a vista de uma janela.

Percorro por lugares distraídos da zona leste de São Paulo com aquele sol se despedindo de mim. Ao meu redor estão pessoas, gestos, cheiros e o tempo correndo.

De uma forma melancólica e intrigante, me deparo com aquele pôr do sol. Ele se vai, e eu fico.

É tudo tão rápido, que eu duvido que aquelas pessoas que eu encontro todos os dias naquele vagão vão suplicar para que a lua dê o seu brilho de uma forma que traga alívio.

Desembarco na estação do Brás. Traços e passos. O ritual ainda continua quando eu observo daquela escada rolante o anoitecer vagando por ali.

Quando eu volto para a minha sã consciência, encontro-me na estação Ana Rosa.
A noite chegou. A calmaria, talvez. E a incerteza que uma cidade inquieta só irá dormir quando o dia raiar.



Crônica escrita especialmente na aula de Laboratório de Redação II - Jornalismo.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Capitão Vidal

Capitão Vidal é um monstro. Sim, senhores, um monstro. Mas não aquele monstro grotesco que eu, você e meu irmão mais velho víamos nos desenhos animados quando éramos crianças. Capitão Vidal foi um monstro sendo um ser humano, que nós o conhecíamos desde sempre nessa realidade.
Ele era grosseiro, orgulhoso e oportunista. Destruía os sonhos dos inocentes que acreditavam em contos de fadas como se fossem refúgios melancólicos. Ele citava as regras, e se fosse possível, matava o próximo sem nem um pingo de piedade. Aliás, ele não sabia o que era ter piedade, muito menos gratidão.

Esse é um tipo de monstro que vemos todos os dias e nós mal percebemos. Talvez, não seja necessariamente  nesta mesma ordem que eu citei. Mas vemos pessoas destruindo sonhos sem ao menos termos uma explicação.

Até quando iremos encontrar os capitães vidais por aí?

Um personagem que, por conta da realidade obscura, perdeu o encanto de sonhar e acreditar em contos de fadas.
Por mais que seja doído descrever a personalidade de Capitão Vidal, eu não o culpo. Mas não o defendo também.

São dois lados da moeda? Há sempre dois lados da moeda numa história surreal, meu caro leitor.

Apesar dos adjetivos sobrecarregados que estão no início deste texto, o Capitão Vidal não era o personagem principal dessa história. Mas ele fazia parte da história de uma jovem inocente que idealizava um lugar melhor de viver.
Talvez ele fosse a pior vítima. A vitima que não teve salvação, que perdera a fantasia de imaginar um universo paralelo.

Se um dia você se esbarrar com um Capitão Vidal, ou se tornar um, transforme-se. Mas se não for possível, paciência.

Meu dever é contar histórias e transformá-las em algo que não seja em vão. E por mais que seja dolorosa ou não, e que envolva inúmeros sentimentos, não deixarei de contar a sua história. Jamais!

domingo, 17 de agosto de 2014

Parecia que era minha aquela solidão...

Foi difícil acordar e perceber que o dia não te deu bom dia. Que a monotonia te persegue feito uma sombra. Que a única coisa que você acredita está desacreditada. Difícil perceber que as lágrimas são os piores entorpecentes de uma solidão.
Acreditar que amanhã será um novo dia ainda é difícil, mas não impossível. E que expulsar os seus demônios seja uma das únicas alternativas.
Parece que a solidão e o medo são os teus karmas mais grosseiros. Sinas perigosas. Sentimentos superficiais.
É uma batalha acreditar que a vida é passageira, que é preciso depositar toda fé, e deixar o pessimismo de lado.
Há anjos que te guiam, querendo o seu bem. Há anjos do outro lado da linha de telefone, dizendo que tudo vai dar certo.
É um misto de desespero, euforia e depressão. Depressão...
É necessário gritar, mas em silêncio. Dizer a alguém que os sentimentos ilhados rondam por aqui por motivos banais.
É um misto de ansiedade, de crise e de idade. Idade?
Tenha calma...
Um pouco mais de calma nesta alma...
Vai ficar tudo bem, sim...
É acreditar que o bom dia surgirá ao acordar. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

O espelho





A vaidade está ali, logo ali atravessando a sua imagem no espelho.
A imagem obscura não precisa receber elogios, se glorificar diante da sua obrigação.
Sinto cheiro de orgulho próprio também. E na maioria das vezes ele cheira mal.

A que ponto você iria para se sobrepor diante de um fato?

Não foi uma pergunta retórica. É apenas uma interrogação pregada na imagem fixada no espelho.







sábado, 8 de março de 2014

Os olhos dizem sim. O olhar diz não.

A minha segunda xícara de café acabara de esfriar quando eu te vi atravessando a imensa faixa de pedestre daquela avenida quase movimentada, vindo de encontro a cafeteria onde eu estava.
Eu tinha a leve sensação de que te conhecia há tempos, mas eram só algumas semanas.
Vi no seu olhar uma timidez nítida. Poucas palavras já diziam o quanto eu estava envolvida contigo, e sem você perceber. Ou você percebia e fingia.
Você me olhou, me cumprimentou e disse que eu estava linda com os cabelos soltos. Confesso que estava muito calor para deixar os meus cabelos soltos, mas como eu já sabia dessa tua visão abstrata sobre a minha beleza, acabei deixando a presilha em casa mesmo, perdida numa das gavetas da estante.
Você pediu um café também. E eu pedia ao destino que ele fosse justo comigo só desta vez.
Conversamos tão pouco, mas dissemos o necessário. O café foi só mais um pretexto, ou um ponto de encontro, sabemos disso, mas eu já sabia que ali teria um motivo. Um belo motivo.
Seria a hora exata para te dizer o quanto eu te admirava, o quanto o seu sorriso me fascinava e o quanto a sua presença me fazia bem. Mas, infelizmente, eu não tenho toda essa coragem.
Então decidi só te ouvir. Ouvi tão pouco de você. Esses poucos nos perseguem, reparou?
O nosso café acabou e eu não queria me despedir de você. As despedidas são tão desnecessárias.
Nos levantamos, você ajeitou a sua jaqueta preta e eu caçava a carteira bege que se perdia na minha bolsa. Quando eu fui reparar, você já tinha pago as minhas xícaras de café por pura gentileza, e antes que eu te retrucasse, você sorriu de uma forma tão singela que eu não consegui dizer mais nada a você a não ser um "Obrigada, querido!"
O abraço duradouro foi resposta para que possamos repetir aquele momento em outra cafeteria ou em qualquer outro lugar. A distância não seria a nossa inimiga, pois eu sei que quando a gente gosta de alguém, a gente enfrenta barreiras intermináveis.
E eu estou pronta para enfrentar todos e tudo por você, por nós e por um sentimento que estamos descobrindo juntos: o amor.
Cuida-se, anjo.

domingo, 2 de março de 2014

Amor platônico

E mais uma vez imaginei você ao meu lado. A semana não termina e mal começa sem ao menos eu só te olhar. Um olhar e já basta. Não preciso falar contigo, não preciso te tocar. Um olhar já corresponde o que eu já sei sobre você. Ou o que eu não sei. É, eu não sei...
Te imagino de longe também. Talvez a imaginação seja um refúgio. Imagino os seus melhores defeitos e as suas piores qualidades. O teu riso escondido. A tua seriedade inquieta.
Imagino o caos que isso deve causar também. As inúmeras desavenças, as mentiras e até mesmo a dor.
O amor quase perfeito, a transa e o calor.
Ouço a sua gargalhada de manhã, a imagino também. Me sento na cama todo dia de manhã, o sol já está brilhando e os ruídos de uma cidade começam. Nada me aflige a não ser sem te ter em um dia normal.
Não quero e não posso te explicar tudo e sobre todos. Não quero e não acho justo. Tenho medo. A distância também teme.
Você apareceu como se fosse algo por acaso. O acaso planeja as surpresas da vida como ninguém. Te nego também, pois são as decepções que te acusam como um alguém qualquer.
O futuro está logo ali e talvez você esteja nele. Não te destaco como uma pessoa qualquer. Apenas te destaco. Ataco, se for necessário. Caso contrário, deixo como está. E como sempre foi.
O amanhã já está chegando e quero te olhar outra vez. Mais uma vez e por uma única vez.
Qualquer dia eu te digo o por quê disso tudo. Mas, enquanto isso, não se importe com o quê o destino te reserve. O destino pode ser o nosso melhor amigo, e sua por vez, um abismo atentador.
Boa noite.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A rotina

O despertador não tocou no horário previsto. O silêncio predominava qualquer miado dos gatos que viviam na varanda. Eu estava, mais uma vez, atrasada. Correr contra o tempo nunca foi o meu forte, porém, era o necessário. Uma noite mal dormida. Um sono acumulado e alguns dias da semana para sobreviver.
A máquina, as pessoas, os estranhos. Componentes da minha rotina. Rotina.
Fim de tarde. Eu e o tempo. Alcançá-lo, e se possível, ultrapassá-lo.
Descer as escadarias para entrar num trem com ar condicionado. Ler o livro que vivia na mochila encantada. A viagem não limitava a leitura. O calor eternizado abafava qualquer tipo de situação. Os olhares. As curiosidades. O cansaço.
Os degraus continuavam. Cidade de pedra me recepcionava. O metrô sem o ar condicionado não. Caos. Atraso. Informações. E mais caos. E por fim, o destino desejado.
Subir as escadas para chegar no segundo andar daquele prédio obscuro, porém, caloroso. Os degraus não tinham fim.
Risos, conversas e concentrações. Matando um leão por dia. Tentando ser o que tantos acham que eu posso ser. E serei!
A volta para a casa. As pessoas estranhas e os olhares continuavam, mas, no sentido contrário. A viagem duradoura. O trem, que por sorte ou não, era agradável. Tempo. E mais tempo.
O agradecimento por mais um dia.
O silêncio da casa permanecia. O banho rápido, mas, precioso, justificou que já era tarde da noite. Todos dormiam. Menos eu.
Por fim, a cama, o lençol e o travesseiro permaneciam lá, quase intactos. 
E a certeza de que o meu velho e querido despertador toque no horário previsto amanhã de manhã. Se possível, sem atrasos.
Até amanhã.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

De amar em vão , cansei!

Me arrisquei todas as vezes que eu estive ao seu lado. Me arrisquei pensando em você e nas tentativas de que iríamos dar certo. Eu, boba como sempre fui, acreditei em todas as palavras que você me dizia, em todas as frases de amor, solidão e angústia. Você me usava de todas as formas. E eu jurava que era amor. Você não me amava. Nunca me amou de verdade.
O sentimento ilhado continua aqui da mesma forma que você deixou. Peguei as suas tralhas e, ao invés de jogá-las do décimo quinto andar, simplesmente deixei na casa de seu primo.
Aliás, seu primo me disse que você já estava com outra. Quantas outras já passaram na sua vida quando você estava comigo?
Eu acreditei que iríamos dar certo. Eu acreditei na possibilidade de que iria subir no altar e jurar que viveríamos até o fim. Você mentiu. Eu me enganei.
Escrevo tudo isso na ânsia de desabafar tudo aquilo que eu não consegui dizer quando eu te vi aos beijos com Karina na saída daquele bar movimentado. A Karina é a sua nova outra?
Gostaria de te dizer também que não me tornei feminista. Saio com outros caras. Me divirto e volto pra casa. Sã, penso que tudo aquilo que não aproveitei contigo, aproveitarei com outros. Outros que são e que serão melhores do que você.
É claro que eu queria que as coisas fossem diferentes, mas você não depositou nenhuma gota de desejo por nós. Eu ainda choro, sim. Choro por acreditar que eu passei por teus braços como um objeto. Objeto fálico.
Aprendi a fumar por sua causa. Um perigo que se tornou refúgio após aquela cena imperdoável. Sim, me tornei o dobro do que eu era no requisito calculista. Culpa daquele maço de cigarro substituindo o nosso primeiro e último porta retrato sob a estante. O porta-retrato se tornou pedaços. 
Também aprendi a ser o que eu sempre quis ser. Onde você não queria que eu fosse. Hoje eu sei o quão sou importante para mim mesma. O quanto o egoísmo faz parte de mim. Não me tornei uma pessoa amarga. Só me tornei alguém mais esperta. Se é que você me entende.
Nenhuma carta com tantas palavras irá traduzir o que hoje eu sinto por você, Diego. Eu não consigo te odiar.. Só consigo sentir pena de você. Sinto que o seu fim não será tão calculista a ponto de achar que todo final será feliz. Não da forma que você deseja. Não do jeito que o destino quer.
Antes que as cinzas do meu cigarro se esbarre nas vírgulas, finalizo te dizendo que te entregarei esta carta olhando nos seus olhos. Eu sei que será difícil. Deve ser difícil para alguém que está lendo agora. E espero que não seja nada fácil pra você.
E desta forma que te demonstro que eu posso ser forte sim, que eu posso ser feliz sim. E a melhor parte é que será sem você.
Por fim e pela última vez, se possível nesta e nas próximas vidas, adeus, Diego. Adeus.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Alguém que parte, e não volta...

Todos os dias eu venho ao mesmo lugar.
Às vezes fica longe, difícil de encontrar...


Ontem, pela primeira vez, pude falar de ti. Consegui falar de ti. Parece que todos os meus pensamentos se transformam em lágrimas quando eu penso em ti, e no tempo que passamos juntos. Foram oito anos de muito amor, carinho, brigas e paixão. Oito anos que me entreguei a ti. Foram oito anos de um fruto especial.
As pessoas ainda percebem como eu me sinto, mas eu tento de alguma forma reverter esses demônios que me atormentam. Eu nunca irei me conformar. Nunca!
Queria te dizer também que estou louca de saudades de ti. Todos os dias eu sinto a sua falta. Todos que gostavam de você também sentem. Todos os dias!
Além desta saudade que não me conforta, mas que me cobre de nostalgia, queria te dizer que a nossa filha está linda. Aline cresce a cada dia. Sua mãe outro dia me disse que ela está se parecendo, a cada passo, contigo. Meus olhos brilharam quando ela me disse isso. Eu sorri em forma de gratidão. 
Eu queria muito que você estivesse aqui. Aline também queria.
Quando você partiu daquela forma que ninguém conseguiu entender, a nossa pequena iria completar três anos. Amanhã ela completará seis. O tempo está passando e você não está mais neste tempo. No nosso tempo.
Tento entender todos os dias o por quê a vida foi tão injusta conosco. Mas quando eu olho para Aline, a vejo como eu tivesse você nos meus braços. Os seus traços refletem nos olhos de nossa pequena.
Nestes últimos anos, tentei lutar pela justiça por você, pela Aline, por nós. Mas nada irá te trazer de volta. Nada!
Eu não queria me cansar, luto para criar a nossa pequena. Ela é a única razão do meu viver.
Me despeço de ti pela segunda vez na semana, debruçada neste túmulo de mármore, revestido de poucas flores. As flores estão vivas ainda. Estas flores representam o meu amor que nunca morrerá por você, Marcelo.
Você sempre foi o meu primeiro e grande amor. E eu sempre irei me lembrar daquela praia deserta e nublada onde nós nos vimos pela primeira vez.
Vou continuar lutando por ti, pela a Aline e por todo este amor que construímos juntos.
Eu te amo. E sempre vou te amor.
Descanse em paz.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Reencontro(s)

O rosto era o seu. (Seu rosto de menina).

Eu não tinha muito o que fazer além de observá-la, discretamente. Tímido do jeito que eu sempre fui, desde os meados dos anos oitenta, não conseguia me conter. Acho que ela percebeu o quanto a sua beleza me constrangia.
A Carolina veio falar comigo. Ela veio falar comigo!
- Renan! Quanto tempo!
Ela me reconheceu.
Carolina continuava linda, do jeito que sempre foi.
Eu não queria contar que a minha vida estava um caco: comecei a fumar depois que terminamos o colegial no final dos anos noventa. Mas pelo meu sorriso sem graça, ela percebeu que eu não tinha tantas novidades assim...
- Carolina...  Você continua tão linda...
Foi o que eu pensei de imediato a falar, mas no final do meu raciocínio só saiu um "Oi Carolina". Como eu pude deixar escapá-la?
Ela gostava de ouvir música folk e tocava violão muito bem. A gente se conheceu no início do colegial, e nos desconhecemos no baile do último ano do colegial.
Mas ontem, Aaah... Ontem! Carolina gravava nomes e datas como ninguém!
Fiquei me perguntando como ela conseguiu me reconhecer naquela lanchonete tão lotada... Antes que eu estragasse tudo pela segunda vez, mantive os meus pensamentos calados.
- Você ainda está morando com os seus pais?
"Não. Mas o que eu queria era morar com você, Carolina". Só que eu me calei. Calei os meus pensamentos pela segunda vez naquela noite.
- Não moro mais com os meus pais. Estou morando num apartamento que eu comprei.
Ela sorriu com uma afeição. Um sorriso de gratidão à vida por ter me proporcionado aquele reencontro.
A gente não tocou em nenhuma palavra que se referia ao nosso passado. Foi melhor assim.
O celular de Carolina tocou. Ela o atendeu. Acho que a ligação era muito importante, pois aquela moça bonita, dos olhos verdes tirou o sorriso que me cativava e o trocou por um olhar sério. Ela teve que sair. Carolina partiu pela segunda vez, e por culpa deste ser que vos escreve, eu não a impedi. Na ânsia de tê-la novamente, voltei para casa com um único pensamento:  eu só queria mais um reencontro...



  Quando te vi tive a certeza de que não seria a última vez.

Por quê o meu telefone foi tocar justo naquela hora?
Eu só o atendi porque era urgente. Eu tive que sair daquela lanchonete porque era a minha mãe ao telefone.
Mas quando eu voltei, o Renan já não estava mais por lá!
Era incrível como a sua timidez ainda o constrangia. A timidez dele me contagiava também.
Será que ele ainda sabia que eu gostava de ouvir música folk e que eu ainda sabia tocar violão? Os anos se passaram depois daquele baile. Ontem, na lanchonete, os minutos se passaram também.
Tentei puxar assunto e eu comecei com a pior pergunta. O perguntei se ainda morava com os pais.
"Porra, Carolina". É, eu sei... A euforia de puxar assunto foi pior do que o meu raciocínio.
O Renan continuava encantador. Sempre foi.
O destino brincou com a gente, mas brindou conosco naquele reencontro. No instante em que eu parti, torcia para que o Renan ultrapassasse a sua timidez e me impedisse naquela saída da lanchonete. Mas nada aconteceu do jeito que planejei.
Depois de ontem, naquela lanchonete, cheguei ao meu apartamento e fui até a sacada abafar a minha euforia. E fiquei pensando no Renan.
Graças ao acaso e àquela pergunta ridícula que eu fiz a respeito de sua moradia, que o apartamento que o Renan mora atualmente, fica em frente ao meu prédio.
Enquanto a minha euforia ia embora, reparei daquela sacada que o dono daqueles passos era os de Renan. Ele entrou no prédio, mas ele não me viu.
Se ele ainda desejou, um dia, me reencontrar... reencontrará!
Nos reencontraremos!

Boa noite, diário!